Em dezembro de 1876 chega a Paranaguá, via Rio de Janeiro, o navio Kepler, procedente do porto da Antuérpia, trazendo a bordo Valentin Klamas, 19 anos, agricultor, com sua mãe Bárbara Klamas (50) e seu irmão Josef Klamas (16) — todos cidadãos alemães católicos, procedentes de Rakowitz, província de Marienwerder, Prússia Ocidental, com destino à Curitiba.
Fonte: Registros de entrada de estrangeiros no Brasil, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.
Lista de passageiros do Navio Kepler, 11.12.1876 — os nomes de Barbara Klamas (nº 34), Josef (nº 35) e Valentin (nº 36) são visíveis, com origem em Rakowitz e destino Curitiba. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro.
A partir de Paranaguá, Valentin e sua família subiram a serra em direção à Curitiba e se estabeleceram provisoriamente na colônia do Abranches com outros colonos poloneses. Apesar de suas cidadanias constarem como alemã, acredito que fossem de etnia polonesa — pela tradição oral e pelas evidências, tendo se integrado junto à comunidade polonesa de Curitiba.
No final do séc. XVIII ocorreram as Partições da Polônia, quando esta foi dividida entre o Reino da Prússia, o Império Russo e o Império Austro-Húngaro. Rakowitz ficou pertencendo à Prússia — daí a cidadania alemã no manifesto de bordo.
Quase um ano depois de sua chegada, Valentin se estabelece no lote número 8 da Colônia Rivière em 31.12.1877. Em algum momento entre 1877 e 1880, casa-se com Lucia Kleina, provavelmente no Abranches ou Orleans — ela é procedente de Bielski, vizinha de Rakowitz na Prússia. Não se tem mais notícia de sua mãe Barbara. Seu irmão Josef Klamas se estabelece no lote nº 33 da Colônia Santo Inácio.
Estatística dos moradores das Colônias de Curitiba, 1887 — entrada da família Klamas, lote número 8, Colônia Rivière.
Localização do lote nº 8 — 19.250 m² — da família Klamas na Colônia Rivière, Curitiba.
Aos 07.10.1889, Valentim Klamas apresentou-se em Curitiba para prestar o juramento de fidelidade à Constituição e leis do Império Brasileiro, reconhecendo assim o Brasil como a sua pátria. No dia 28.06.1898, Valentim Klamas transferiu o seu lote na Colônia Rivière para João Maczonek, tendo sido provavelmente esta a ocasião em que se mudou com a família para a Colônia Thomaz Coelho, em Araucária.
De acordo com a Bula Inter Coetera do Papa Alexandre VI, em 1493, as terras descobertas ou que se descobrissem a partir de um meridiano distante 100 léguas a ocidente das ilhas de Açores e Cabo Verde pertenceriam à Espanha. Com o Tratado de Tordesilhas (1494), coube a Portugal as terras situadas ao leste da linha imaginária que demarcava 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde.
Com a vigência desses tratados, o sul do Brasil pertencia à Espanha. As divergências começaram com o descobrimento de novas ilhas no arquipélago de Cabo Verde — no entendimento espanhol, a linha passava na barra do Airiri em Cananéia-SP; na versão portuguesa, em Laguna-SC.
Após dois séculos de ocupação e colonização pelos espanhóis na República del Guaíra (atual estado do Paraná), invadido e saqueado pelos Bandeirantes Paulistas, a Espanha cede o território até a Colônia do Sacramento no Uruguai com o Tratado de Madri em 1750.
Até o início do século XVIII, somente os portugueses eram autorizados a se fixarem na Colônia. Após a chegada da Corte em 1808, foi realizada uma política imigratória apoiada por D. João com legislação específica. Os principais motivos foram:
Do lado brasileiro: a ocupação e colonização do território, a necessidade de suprir a mão de obra escrava, promover a agricultura de abastecimento e fornecer trabalhadores para a construção de grandes obras públicas.
Do lado europeu — principalmente Alemanha, Itália e Polônia —, os países passaram no século XIX por crises econômicas, agrárias e constantes guerras, formando um grande contingente de emigrantes.
No caso específico da Província do Paraná, emancipada somente em 1853, foram concedidos estímulos à posse de terras em conjunto com o governo imperial. O primeiro presidente da Província, Zacarias de Góes e Vasconcelos (1853–1855), via como problemática inicial: "povoar esse território de duzentos mil quilômetros quadrados", e sancionou leis para promover a imigração de estrangeiros.
Foi na gestão de Adolfo Lamenha Lins que a colonização do Paraná ganhou um grande impulso — com um novo sistema de colonização, diferente dos modelos já organizados na província e até mesmo no Brasil. Seus princípios baseavam-se em:
A esse sistema deu-se o nome de Linismo. No relativamente curto período de sua gestão, Lamenha Lins fundou as colônias de Santa Cândida, Orleans, Dom Pedro, Dom Augusto, Tomás Coelho, Lamenha Grande, Lamenha Pequena, Santo Inácio e Rivière — criando o "cinturão verde" para o abastecimento de Curitiba.